Quis me mostrar a ele. Me perguntei se ele conseguiria ver. Quis que ele visse o meu medo, a minha fragilidade, que visse tudo de mim. Mas sabia que era cedo, sabia que ele poderia não suportar. Era um afeto jovem e você sabe o que dizem de afetos jovens: imprevisíveis.
Eu me apaixono como quem arranca máscaras. Eu me abro, exponho a fragilidade da alma diante daquele que a cativa. O que é o amor senão a entrega de si mesmo? O que é amar, se não a queda livre, ladeira ou precipício abaixo?
Mas esse era um afeto novo.. Não era possível me dar assim, era suicídio. No entanto, ele estava aqui, na minha casa, olhando a minha vida. Poderia ele perceber o tamanho da minha solidão? Poderia ele perceber o medo que carrego dela? De ser esse o meu destino. Me chamava de misteriosa, será que era possível que ele visse a ausência de mistério ali, pairando no ar? E que era claro que, mesmo eu estando ali, todo dia vencendo pequenas batalhas contra a solidão, era ela que vinha ganhando a guerra? Será que ele poderia perceber que, se tornar o meu amor, seria preencher um papel nessa luta diária?
Me pergunto se sabe. Mas acho que não. Ele viu a auto suficiência, conheceu o meu refúgio, meu espaço. Ele deu e buscou carinho, mas pouco entende do que é ser sozinho. Não é?
Ele fala de casa cheia, me pergunto se essa é a sua solidão. Se me busca para aplacar a própria. Se ele tiver a solidão dele, entenderia a minha? Se, tendo essa solidão e eu ajudar na dele, ele me ajudaria na minha?
São tantos "se's" e é um afeto tão jovem, tão frágil.. É alguém tão especial que já posso dizer que é um amor filhote. É como se pudesse ver crescendo. Tenho medo das promessas desse sentimento, principalmente sobre o que ela pode fazer com a minha solidão. Ninguém quer ser sozinho, mas pior mesmo é aprender a ser sozinho, desaprender e ter que reaprender. Ninguém é o mesmo depois de tanto brincar de esconder com a solidão. E olhar toda essa tarefa me fez desistir de tantos antes.. Mas eu o vejo como um filhote de amor. Sinto que devo cuidar dele como tal, que essas borboletas no estômago e esse riso no rosto são alimento pra fazer o filhote crescer e ficar forte. Mas, agora, ainda é o imprevisível. E o imprevisível me vê misteriosa, uma dama de véus. O que ele fará ao ver que a dama embaixo deles é uma menina e a mulher é apenas uma casca grossa da solidão? Não é uma pergunta que se possa responder sem tempo, ainda que não haja tempo nem tenha como retroceder. Aqui fico eu, parada, fazendo cara de esfinge pra disfarçar a avalanche de medo que carrego. Mas não me convenço a ir, eu quero. Que ele venha de uma vez, então..

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