Sobre doer
Queria ser capaz de entender a dor. Lido com a dor todos os dias. Fisiologicamente, meus pacientes reclamam de suas dores crônicas, seus problemas que não tem cura e os vejo, muitas vezes, travarem pequenas batalhas entre si para ver quem sente mais dor.
Penso que, entre eles, muitas destas dores ultrapassaram a barreira do corpo. Aquela dor da articulação se entranhou de uma forma que parece ter invadido a alma e lá feito morada. E com uma placa: daqui ninguém me tira.
Eu vejo essa dor todos os dias, no trabalho. Mas vejo outras. Vejo amigos sofrendo pelas mais diversas razões. Mas, sabe qual é a pior dor? A de quem tem medo de sentir dor. Isso, por si só, já é uma dor. E uma daquelas que não acaba nunca, porque dor e medo se juntam e se alimentam um do outro.
Eu gosto de dor física, não tenho vergonha de dizer isso. Sentir isso há muito tempo não é um tabu. Às vezes acho que gosto de sentir dor psicológica. Em alguns casos, acho que até a procuro. Nisso, há um pouco de vergonha, mas não o suficiente pra esconder o que sinto.
Nem para ter medo. Não tenho medo de sofrer, nem de me lançar às coisas, ou de viver algo que ameace me tirar de mim. Cada segundo que você sai de si mesma é garantia certa de que você será três mil vezes mais sua ao voltar. Cada medo que você deixa entrar em você, lhe tira a posse de si dez mil vezes mais do que a dor de viver aquilo de uma vez, mesmo dando errado.
E, eu digo, não sei de nada dessa vida. Mas de dor eu entendo um pouco. A dor de evitar algo por medo é mil vezes pior que a dor de ficar se rasgando no chão por algo ter dado errado. E o pior: ela não vai embora.
A dor que você sente junto do medo de tentar sai pulando a cada nova coisa que aparece na sua vida. E, se a segue, você pula com ela. Sabe o que você está pulando? As oportunidades de se sentir plena. Plenamente acabada, plenamente feliz, plenamente triste, dona da plenitude dentro da capacidade de lamber um ralo de banheiro público e saber que aquilo dói menos do que a besteira que você fez. Você perde a oportunidade de dirigir a si mesma ao caos que um desejo pode lhe levar, de quase morrer, de morder os cotovelos de tanta dor. Mas você também perde a oportunidade de sair de tudo isso e ver como a sua amiga vê: não era nada.
Acho que tenho uma tendência a levar meus textos pro lado da autoajuda. Logo eu, que odeio autoajuda. Vou te dizer de um jeito bem duro: deixa essa porra doer, isso não vai te matar e tu ainda vai rir de si mesmo por ter sido tão bobo de achar que poderia te matar. Câncer te mata; um coração partido te preenche de si mesmo.
Já escrevi tanto nessa vida pra fugir da dor. E cada vez a encontrava mais forte em mim. Hoje, eu a confronto e tenho orgulho de dizer que, às vezes, eu a deixo ganhar. Deixar doer também é bom. E, depois da dor, você aprende o valor das suas quedas. E, acima disso, aprende que cair não mata. Até aprende a cair com graça. Porque, eu lhe digo, querida pessoa que me lê, não vai deixar de lidar com a dor nunca. Mas você tem a escolha de tocar a dor e aprender com ela ou sair fugindo como se fosse um fantasma. Só não esquece que fugir de algo que está dentro de você é um gasto desnecessário de energia. Um conselho? Chama a sua dor pra um café. Ou uma cerveja. Vale a viagem.
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